o primeiro passo para conseguir viver viajando


antes de largar o emprego convencional, de encontrar uma nova forma de renda ou escolher o primeiro destino, há um passo que define tudo o que virá

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A ideia de viver viajando pode parecer bem sedutora. Não é difícil imaginar que a maioria das pessoas diria que sim, gosta de conhecer novos lugares, quer viajar muito mais, que é uma de suas prioridades na vida. Mas nós somos bombardeados (o que é em maior medida nossa escolha) por uma miríade de possibilidades de vida todos os dias — “eu também gostaria de fazer yoga, ter um cargo melhor, correr toda manhã e viajar o mundo”. Com dez minutos no Instagram já é fácil se perder entre a vida dos outros e o que poderia ser a nossa. 

Só que viver viajando não é um desses hábitos que pode ser incorporado à uma rotina já estruturada. Abrindo uma janela de quarenta minutos para exercícios físicos e fazendo escolhas mais conscientes no supermercado já é possível viver mais saudável, por exemplo. Viver viajando é uma aposta bem mais alta e tem a ver com renúncia de todo o resto.

Foi preciso calar a polifonia do mundo e os ruídos interiores (resíduos de ideias velhas sobre trabalho ou sucesso que talvez nunca tenham sido nossas), para entendermos o tamanho e a importância do nosso desejo: não era passageiro, não era adiável, não era substituível.

Viver viajando era a voz mais alta e mais sincera, era sobre como a gente queria existir no mundo.

lucas tentando alcançar a tartaruga – você consegue encontrá-la?

cozumel, 2017

 

Prioridades – calar todas as vozes que não importam

Escutar essa voz dentro da gente foi tão importante, não só porque ela continha em si o nosso momento da virada, mas porque ela permitiu que a nossa virada não fosse dramática, cheia de dúvida ou culpa.

Uma vez que nós entendemos que estar em movimento no mundo nos era fundamental, a coisa mais importante, todos os acenos constantes das outras possibilidades na vida foram reclinados com calma, sem dor.

  • Não iríamos mais nos importar com uma escalada de cargos, construindo uma imagem bonita para o mercado corporativo, porque escolhemos viver viajando.
  • Não iríamos mais fazer pequenas viagens toda semana. Isso só desviava nosso foco e acalmava a voz que dizia que a gente queria muito mais.
  • Não iríamos mais gastar com coisas para nós e para a casa, já que esses gastos nos afastavam do que era mais importante.
  • A corrida para enriquecer não era mais uma prioridade.

Viver viajando é que era.

usufruindo da felicidade de viver o que mais importa

playa del carmem, 2017

Colocar o desejo de viver viajando acima de todos os outros é o primeiro e único passo que vai fazer você se mover. Quando nós calamos todos os outros desejos, direcionamos tudo  o que temos para o que importa. Fica possível chegar. E o caminho fica mais leve.

Viver viajando precisa ser a voz mais alta. Precisa ser prioridade.

Pensar no que é prioridade de acordo com nossos desejos mais sinceros é exercitar uma consciência de si mesmo (em que perder-se é assustadoramente comum), e resulta em uma troca justa onde você pega para si o melhor do mundo, e devolve ao mundo o melhor de si. O que nos parece de todo modo uma boa definição de felicidade, ou harmonia.

Quando você entende a sua prioridade de acordo com os seus desejos mais sinceros, você pega para si o melhor do mundo e devolve ao mundo o melhor de si.

A nossa lista – como nós não perdemos o foco em viver viajando

Você pode ser mais ou menos pragmático quando pensar em entender quais as suas próprias prioridades. Nós costumamos ter uma lista de coisas que valorizamos e ordenamos com o que mais importa no topo (estamos sempre revendo).

Transformar a bagunça interna em coisa concreta nos ajuda a entender a importância que cada desejo tem e a ter sempre em mente o quanto do nosso esforço, tempo e dinheiro cada um deles merece.

a nossa lista em uma agenda antiga.

florianópolis, 2015

Pensar em termos de prioridades, e não apenas de gosto ou desejo, em certa medida nos humaniza: nos lembra que nós não precisamos querer ou fazer tudo. Isso nos lembra que temos uma vida nossa e que devemos, dentro das possibilidades de uma pessoa, fazer o melhor com ela.

 

Como era antes da lista

Se nos voltamos à nossa rotina três anos atrás nos damos conta que a maior parte da nossa energia, do nosso tempo e do nosso dinheiro estava sendo empreendido em tarefas que não nos davam satisfação alguma, ou pior, que nossos recursos estavam escoando em válvulas de escape – a junk food que “eu mereço” depois de trabalhar tanto, o Uber que “eu mereço” porque já estou cansada demais do trabalho pra pegar um ônibus.

 

A felicidade de viver com prioridades

Eleger prioridades não significa que, uma vez que elas estiverem claras, você vai fazer somente o que é prazeroso. Mas mesmo as atividades mais penosas passam a fazer parte de um projeto maior, e esse senso de propósito permite que elas sejam executadas sem aborrecimentos ou lamúrias. Empreender, por exemplo, não era um sonho ou uma paixão, mas nós o fizemos apaixonadamente porque entendemos que disso dependia a nossa liberdade de ir e vir, que estava acima de tudo. O mesmo aconteceu quando tivemos que deixar o emprego e a casa fixa, ou quando nos desprendemos de muitas das nossas coisas.

Tomar posse das próprias vontades pode ser um processo longo, doloroso e com algumas perdas. Mas é na outra face libertador, potente, transformador. Viver viajando não é algo que você pode “começar amanhã”, a ser incorporado sem qualquer tipo de prejuízo a uma vida já estabelecida. É um movimento que exige corte, ruptura, destruição e construção do novo.

A lista de prioridades e a soberania incontestável do nomadismo digital no topo nos deu coragem pra seguir em frente em um projeto arriscado, e reexaminá-la é um exercício contínuo que acaba em dois corações tranquilos: nós estamos vivendo de acordo com o que é mais importante pra gente.

Nós estamos vivendo.

explorando a cidade que nunca tínhamos explorado direito

rio, 2016

You have exactly one life in which to do everything you'll ever do. Act accordingly.

— Colin Wright

O que fazer para conseguir se enxergar e dar o primeiro passo hoje

É muito fácil se distrair, deixar pra depois, ou se perder num caminho que pode ser longo até que você consiga viver completamente de acordo com o que é prioridade. Um pouco de método pode ser útil, ou até necessário, quando você diagnosticou que quer viver viajando, mas ainda não sabe bem como começar a agir em direção à isso.

Algo que você pode tentar:

  1. Pense que viver viajando a partir de agora será a sua prioridade máxima
    Considere um cenário em que criar uma vida em que você possa viver viajando está acima de trabalho, amigos e quaisquer outras coisas que tomem seu dia-a-dia. “Ver o mundo” estará no topo.
  2. Anote todas as suas atividades durante uma semana
    Anote tudo que você faz, desde acordar até voltar para a cama. Isso vai dar clareza sobre onde você coloca seus recursos hoje: para onde vão as 24h de cada dia, o dinheiro que sobra depois de pagar as contas básicas, aquela energia de quando você está mais produtivo.
  3. Analise a lista da semana com toda a sinceridade
    Leia com atenção suas anotações e destaque todas as coisas que você faz e que não estão alinhadas a criar uma vida que você possa viver viajando (sua prioridade). Isso inclui o tempo gasto trabalhando para os outros, a energia que dedica conversando com pessoas, o dinheiro e tempo gasto em compromissos sociais. Mesmo coisas que são inquestionavelmente boas — como cozinhar todo dia, passear, ir para a academia— devem ser questionadas diante da prioridade. Lembre-se: você não consegue fazer tudo ao mesmo tempo e a sua prioridade vai demandar muito de você, principalmente na fase de transição. Por mais que tudo que você faz hoje seja até bom, ninguém é super-herói. Algumas coisas (e pessoas) vão precisar ficar de lado por um tempo, até você conseguir se estabelecer na nova vida que vai criar.
  4. Reflita sobre a mudança que será necessária
    Pense como você pode direcionar as atividades da sua rotina hoje para a sua prioridade de viver viajando. É importante não se importar com os outros nesse momento.
  5. Esboce como seriam os seus próximos dias
    Seja bem crítico e esboce um plano do que seria o seu dia-a-dia nos próximos meses, se você colocasse seus recursos no que realmente importa. Nesse esboço, tenha certeza que o período que você está mais produtivo, que maior parte do seu dia (isso pode significar pedir demissão), e que o seu dinheiro sejam dedicados para uma ação crucial em direção ao plano de viver viajando.
  6. Entenda se você realmente quer fazer isso
    Olhe para o esboço e admita se você está ou não disposto a priorizar a construção de uma vida nova para viver viajando. Se você perceber que tem alguma coisa que parece essencial para você, mas não leva nessa direção, pergunte-se se você vê possibilidade de isso ficar em segundo lugar na sua lista de prioridades ou não. Entender isso é libertador: ou vai dar a clareza sobre o que você deve fazer (e não fazer) daqui para a frente; ou vai dar a leveza de que, na verdade, você não quer isso acima de outras coisas (e que viver viajando pode ser só mais um dos seus desejos).

Escrever é simples, rápido, acessível, e assustadoramente revelador. Essa possibilidade de se enxergar quase de fora, no momento da leitura, faz com que você tenha algo palpável para então se perguntar: é assim que eu quero viver? Quero isso acima das outras coisas? Estou disposto a dar o primeiro passo?

Essa reflexão é uma espécie de representação literal do que a gente esteve tentando dizer até agora: a sua vida está nas suas mãos.

 

 

Queremos muito saber o que você pensa!

  • Sobre família e distâncias: como nos aproximamos mesmo estando longe – vida móvel
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    quem escreve
    Sobre família e distâncias: como nos aproximamos mesmo estando longe – vida móvel

    […] reforçar as relações. E para estas, dedicamos bastante da nossa atenção e esforço (é uma das nossas prioridades). Existem outras que vão amornar, morrer, e outras que vão renascer só nos momentos de […]