viver sem endereço fixo: como se sentir em casa em qualquer lugar do mundo


para nós, casa não tem nada a ver com posse ou lugar fixo

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É sempre um choque para quem ouve: nós não temos casa. Não tem pra onde voltar. Não existe mais a nossa cama que é mais confortável que as outras, ou o nosso chuveiro que tem a pressão e temperatura ideais, ou as nossas coisas dispostas de acordo com o nosso gosto, como uma projeção exterior de quem nós somos.

“Mas não faz falta ter um lugar pra chamar de casa?”
”E quando vocês pararem, não querem ter o lugar de vocês?”
”Onde vocês deixam as coisas?”
“E o comprovante de residência?”

Talvez o maior choque se dê, na verdade, quando a gente deixa isso mais claro: nós vivemos sem um endereço fixo, mas nós temos casa.

depois de um dia cansativo de caminhada é gostoso chegar em um lugar que podemos chamar de casa

dubrovnik, 2018

A verdade é que a gente fez dois deslocamentos quando começamos a viver viajando: nos deslocamos da nossa casa em Floripa para o mundo, mas também, e principalmente, deslocamos o nosso sentido de “casa”.

Nós tivemos que descobrir qual parte da ideia de “casa” ainda nos interessava, o que ainda era importante pra gente se sentir bem. Nada tinha a ver com a localização em um ponto preciso no mapa, claro, e ainda menos com a ideia de um lugar para depósito dos acúmulos de uma vida.

Nós descobrimos que “casa”, pra gente, tinha mais a ver com abrigo.

Como a gente consegue se sentir bem assim

Pra gente, “casa” é um refúgio mental, onde nos sentimos seguros, confortáveis em meio à hostilidade que é estar em uma cidade nova todo o tempo. É o nosso abrigo. Onde é possível trabalhar (não curtimos coworking) e pra onde voltamos para assimilar e suportar todo o desconhecido (e fascinante) da rua.

trabalhar em casa é um tipo de liberdade que combina com a gente

porto, 2018

Entender isso levou tempo, mas hoje sabemos exatamente como encontrar e transformar um airbnb na nossa casa-dos-próximos-três-meses.

1. Aprendemos a escolher a melhor casa pra gente

Nós tínhamos muito receio de que, eventualmente, rolasse aquele sentimento de exaustão de fim de férias. Aquele em que uma pessoa só quer voltar pra casa, para o próprio travesseiro, porque só em casa consegue se sentir à vontade, segura, confortável, e só lá consegue produzir, colocar a vida em ordem e se sentir em paz. Por isso, este é o nosso primeiro conselho para quem vai viver viajando: escolha qual vai ser a sua casa, e não qual vai ser a sua hospedagem.O que você espera de uma hospedagem onde vai passar cinco dias de férias (e provavelmente só vai usar pra dormir), é muito diferente do que você quer de uma casa, no melhor sentido da palavra. E é claro, o que cada pessoa precisa é diferente.

Por exemplo, eu, Nath, preciso sempre estar pelo menos um andar acima do térreo, porque além de um medo enorme e incontrolável de insetos rastejantes, se ouço à noite qualquer barulho minimamente suspeito já me vejo em pânico trancada no banheiro – aconteceu em Tulum, quando a gente achou que tudo bem ficar no térreo. Não esteve tudo bem, e agora a altura do apartamento que a gente aluga é um fator a ser considerado na hora de escolher onde ficar. Casa não deve ser um lugar onde a gente vive com medo.

Um quarto bem escuro é outra condição pra mim. Eu quero poder trabalhar e conhecer a cidade, e fica impossível estar inteira no trabalho e também aproveitar ao máximo a cidade se eu estiver dormindo mal.

Pra mim, Lucas, uma cozinha bem equipada é fundamental. Casa é lugar de cozinhar sem perrengues. Um chuveiro com pressão suficiente pra dar uma boa aliviada no cansaço do corpo também é importante. E uma TV, pra conectar o chromecast que levamos com a gente para assistir netflix quando não queremos sair de casa.

lucas curtindo um dos airbnbs mais bonitos que ficamos.

porto, 2017

Além disso, a gente sabe que só vai se sentir em casa se estivermos em um bairro tranquilo, seguro. Garantimos sempre ficar perto de ao menos um mercadinho e ter fácil acesso ao centro da cidade. Quando o estresse do trabalho pega e precisamos nos sentir ainda mais acolhidos, buscamos uma casa que fique perto do mar, de um rio ou parque, para que a gente possa fazer aquelas caminhadas que salvam. 

Um host bem querido, vizinhos hospitaleiros e cachorros e gatos acessíveis na vizinhança nem poderiam ser uma exigência, mas são sempre uma boa descoberta, dão uma sensação de familiaridade e acolhimento em qualquer lugar do mundo.

esse é o frappé, o gatinho da praia que visitamos toda manhã

creta, 2018

2. Entendemos que, na primeira semana, nenhum lugar é casa

Nós nunca nos sentimos imediatamente acomodados ou tranquilos quando chegamos em uma casa nova. E duvidamos que alguém se sinta. Nossa experiência diz que uma semana é o tempo mínimo para a adaptação acontecer. Fora a mudança extrema que já é trocar de país (e nosso corpo responde mal à isso), o ambiente onde a gente chega nunca é igual ao de partida. Mesmo que a nova casa seja melhor que à anterior, sempre ficamos que nem gato em território desconhecido.

E tudo bem. O estranhamento inicial é um preço baixíssimo a se pagar para viver o que vivemos. Esperamos nosso corpo se adaptar às mudanças (na segunda semana ele já relaxa), enquanto preparamos o nosso abrigo. 

os primeiros dias em uma cidade são cheios de medos e descobertas: no caso dessa foto era coisa boa (raramente conseguimos/queremos tirar fotos dos perrengues)

gramvousa, 2018

3. Aprendemos a adaptar a casa à nós

Assim como toda pessoa adapta a sua casa às suas necessidades, nós também o fazemos. A primeira semana em um lugar novo é cheia desses movimentos: como a disposição da mobília fica melhor pra gente? O que tá faltando na casa que a gente pode comprar aqui na cidade?

De qualquer maneira, é sempre bom fazer todas as perguntas necessárias ao host antes da reserva (temos uma lista de perguntas prontas, que enviamos antes de reservar qualquer lugar no airbnb). Assim já dá pra saber o que vamos encontrar, o que podemos levar, e o que vamos ter que buscar no novo destino quando estivermos lá

Nós já compramos velas aromáticas, rolo de madeira pra fazer roll de canela no Natal, modem wifi pra internet, extensão de tomada, cabides e bicicleta usada. Quando vamos embora, doamos ou deixamos essas coisas como presente pro host. É difícil algo que a gente precise e não consiga encontrar pra comprar quando necessário (e quando vamos na loja, temos aquela sensação boa de que vivemos mesmo lá).

Outras coisas, que entendemos que são bem particulares nossas e não dá pra esperar nos airbnbs, já viraram itens definitivos na mala: potinhos pra armazenar comida na geladeira (fazemos meal prep em algum nível), um cesto dobrável para deixar as roupas sujas, uma chaleira elétrica portátil, um travesseiro extra.

Na nossa casa (onde quer que ela seja) nós temos tudo de que precisamos: coisas de uso prático, segurança, conforto pra trabalhar e descansar. Mas temos também, mais essencialmente: um ao outro.

Home is wherever I’m with you

Viver viajando nos fez pensar nessa crença subjetiva que é pertencer a um lugar. À que lugar nós pertencemos? Ao lugar de onde saímos? Ao lugar pra onde iremos? Ao agora, à cidade de agora, à casa de agora, ao momento presente?

Sentir que não temos um lugar no mundo, mas que o mundo é o nosso lugar não diminui em nada a importância dos laços particulares, das conexões preciosas que estabelecemos com as pessoas durante a vida (falamos sobre isso no texto: viver longe da família). Isso tudo só evidencia a sensação de pertencimento que essas pessoas amadas nos dão: aquelas com as quais podemos ser inteiramente nós mesmos sem verniz ou escudo de proteção. Aquelas com as quais nos sentimos, bem, em casa.

das raras fotos (dos muitos momentos felizes) que estamos juntos

elafonisos, 2018

Nós escolhemos partilhar essa jornada, e somos há dois anos a casa um do outro. Talvez já fôssemos antes, mesmo quando havia um endereço fixo. Mas é mais evidente agora, depois que tornamos um sonho realidade juntos, e podemos olhar para o desconhecido (quando ele é assustador e quando ele é maravilhoso) descansando nos ombros um do outro.

E o comprovante de residência?

Menos poético, menos filosófico, mas muito importante: e a papelada?

“Pra onde vão as contas?”
“Que endereço eu coloco na hora de preencher um cadastro?”

Nós usamos o endereço dos nossos pais no Brasil, e nunca tivemos problema com isso. Dá pra usar o de um amigo também, desde que ele tope assinar uma declaração de que você vive com ele. Já aconteceu de precisarmos receber documentos por correio no Brasil, para serem depois encaminhados pra gente no nosso endereço temporário.

Talvez interesse saber que fizemos uma procuração para os nossos pais poderem assinar pela gente quando um imprevisto burocrático acontece. E que nossa empresa também não tem “casa”, mas tem endereço. Virtual, pra ser exato. Pagamos o aluguel de um endereço em um coworking em Floripa, que serve pra documentação legal e raras e inesperadas entregas do correio.

E onde deixamos as nossas coisas?

As que não estão com a gente ficaram na casa dos pais. São as coisas de apego sentimental: os objetos que lembram pessoas e momentos dos quais não conseguimos nos desfazer. Estão lá também guardados aquele tipo de documentos que a gente talvez precise um dia, porque o mundo não está todo digital ainda.

nath resolvendo coisas burocráticas com a mãe no whatsapp – olha a carinha dela de “felicidade”

dubrovnik, 2018

Abrir mão de um endereço fixo para viver viajando, desapegar de várias coisas, escolher o que vai e o que fica e enfim descobrir o que é casa pra você: demora.

O nosso processo envolveu descobertas como: a gente não precisa “ter” todas as coisas pra se sentir em casa. Os pronomes possessivos fazem cada vez menos sentido: aquele apartamento não é nosso, aquelas coisas não são todas nossas, e no entanto a gente pode se sentir bem, confortáveis, seguros e à vontade com elas por três meses.

Casa é abrigo, e dá pra criá-lo quantas vezes forem necessárias.

As pessoas também são casa. Os cachorrinhos e gatinhos da vizinhança também são casa. Estar bem com você mesmo, viver de acordo com as suas prioridades e desejos mais sinceros, também é casa. A gente pertence ao nosso sonho.

Queremos muito saber o que você pensa!