como lidar com a reação da família quando você decide viver viajando


nós aprendemos sobre presença na distância, e descobrimos que somos melhores (para o outros) quando estamos melhores (com nós mesmos)

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Nós já imaginávamos que as nossas famílias não fariam festa para celebrar: meu filho acaba de largar um emprego estável, minha filha está me dizendo que a partir de agora não tem mais casa. Eles não estarão mais aqui nos almoços de domingo, nas datas de aniversário, nos dias em que a vida se tornar difícil de suportar.

Comunicar a família que nós havíamos decidido viver viajando só não foi mais complicado porque nós o fizemos quando de fato esta já era uma decisão tomada, e não apenas uma possibilidade ou sonho distante. Caso contrário, seria possível que fôssemos dissuadidos, ou pelo menos que nossa vontade sofresse abalos mais severos.

Não sei se você já viveu uma situação como essa, mas ao desafiar o desejo de familiares, amores, ou amigos próximos, talvez se depare com essa sensação: a de que você deve se defender do amor que sentem por você.

aquele mix de felicidade e culpa de quando se larga algumas coisas para agarrar outras

ouro preto, 2017

Soa bastante óbvio proteger-se e manter-se em vigília quando seus sonhos ou conquistas estão sob olhares invejosos, raivosos, claramente ceifadores. O amor dos outros e suas boas intenções também podem se tornar armadilha, empecilho ou boicote.

Este texto é sobre como nós transformamos esses sentimentos em crescimento, pra nós e pros nossos familiares. Sobre como a transformação na nossa vida também transformaria as deles. E sobre como a nossa relação com essas pessoas tão importantes evoluiu e se estreitou mesmo que um oceano entre nós sugerisse o contrário.

nesse dia o lucas sentou ali nas pedras e mostrou essa view por vídeo para o pai

dubrovnik, 2018

Um exercício de maturidade e paciência (e amor)

Provavelmente a sua família não vai dizer: “não faça!”. Assim até seria mais fácil contrariá-los, e em uma teimosia adolescente, encontrar um jeito de fazer. Mas a maioria não fala com todas as letras (os nossos não o fizeram). A preocupação e o cuidado muitas vezes aparecem em forma de alternativa ou conselho: “por que você não tira umas férias?”, “mora aqui em casa um tempo até você juntar mais dinheiro pra viajar”. 

Na melhor das hipóteses, eles podem tentar entender o seu sonho, mas o farão com as ferramentas de que eles dispõem. Viver viajando é uma rotina distante demais da realidade da maior parte das pessoas e será preciso algum tempo e disposição para explicar que ela será a sua.

Os nossos pais ofereceram principalmente duas resistências quando contamos sobre nossos planos: presença e dinheiro.

1. Sobre presença

Se você tem um convívio assíduo com a família, a presença pode ser outra causa de resistência. Se há alguma espécie de dependência emocional dos seus pais em relação a você, essa questão se agrava: “meu pai, mãe ou irmãos precisam de mim, e eu não estarei disponível.”

A família pode falar pouco, ou apenas demonstrar tristeza com a sua ausência iminente, mas nesse caso é provável que você sozinho já se encha de culpa.

Ficando mais perto de quem se ama

A minha família nuclear (eu, Nath) sou só eu e minha mãe, que quando estávamos planejando viver viajando enfrentava uma dificuldade psicológica e parecia ter perdido o ânimo para viver.

Eu já morava com o Lucas e a nossa casa era um abrigo pra ela, um espaço familiar onde ela se sentia acolhida. Continuar persistindo no nosso sonho e ao mesmo tempo não abandoná-la em um momento difícil exigiu que a gente fosse criativo, e descobríssemos outras formas de cuidado que não a presença física constante. Eu só poderia deixar o nosso apartamento em Floripa e passar a viver sem endereço fixo, se eu soubesse que a minha mãe ficaria bem.

sempre foi só a nath e ela

jardim serralves, 2018

Comecei a buscar coisas pelas quais ela pudesse se interessar, atividades nas quais ela se encontrasse, que a mantivessem feliz e ocupada. Foi mais de meio ano de conversas diárias, resistências dela e alguns momentos de coragem. Daí surgiu a yoga, que teve e tem até hoje um papel importantíssimo na vida dela. Eu e o Lucas havíamos descoberto uma paixão, algo que nos interessava e nos movia: viver viajando. E queríamos que ela sentisse isso que a gente experimentava, essa força interior e vontade de viver que uma pessoa encontra quando encontra a si mesma.

A yoga foi só o primeiro passo. Convencê-la a viajar foi o próximo.

Cruzando o oceano

Minha mãe tinha tanto medo de viajar, que enquanto se organizava para nos encontrar em Portugal (depois de muitos meses de convencimento) não contou a ninguém seus planos, com medo de que fosse desistir no meio do caminho. Mas ela foi, sozinha. (Ela e um roteiro de “como se virar nos aeroportos/conexões”). E foi incrível. Ela parecia outra. Durante todos os dias de viagem, dona Cleinha bateu mais perna que um ano inteiro e descobriu que o mundo é enorme e cheio de coisas que ela quer ver, pelas quais ela pode se encantar. E pra gente foi um alívio ver o medo dela se transformando em potência, em vontade, em felicidade.

nem o frio tirou o sorriso dessa foto

guimarães, 2018

Hoje, ela é uma companheira nessa jornada. Sempre sabe mais que a gente sobre o lugar onde estamos, sugere destinos e já planeja nos encontrar de novo, ao que tudo indica na Itália.

 

2. Sobre dinheiro

Dinheiro é uma preocupação em muitos casos. Foi a principal no meu (Lucas aqui). Largando um cargo legal em que ganhava bem, eles ficaram surpresos e preocupados: “mas você não está feliz com o sucesso?” “como vai conseguir estabilidade, segurança, aposentadoria?”.

Era esperado que isso acontecesse, já que a escassez financeira foi tópico muito recorrente na minha família. Meus pais são como muitas outras pessoas no Brasil que decidiram sair da fazenda para tentar a vida na cidade. E essa jornada de sair do nada para alguma coisa tem um significado enorme para quem sonhava em ter uma família grande e feliz.

o lucas levou um bom tempo pra se livrar da culpa de largar o emprego, mas isso serviu também de estímulo pra fazer a nossa agência dar certo

ouro preto, 2017

Largar o emprego estável e uma carreira promissora, sendo que na época eu era a pessoa que mais ganhava (e nem era muito) na minha família, era como abrir mão de uma vida melhor, uma decisão incompreensível. Mas que foi sendo aceita depois de muitas conversas sinceras sobre como eu me sentia mal por estar vivendo o que eu não queria.

Iniciar essas conversas foi bem doloroso, mas foi assim que descobri que a sinceridade é a melhor ferramenta de comunicação entre quem se ama. Aprendi a dividir medos e planos (como nunca tinha feito) sobre como viveria dali em diante e de como me relacionaria com eles. Isso atenuou nossas diferenças e discussões, mas também abriu espaço para o compartilhamento de alegrias e coisas em comum.

Por mais que a gente tenha preparado o terreno tentando deixar nossos familiares seguros de que tudo iria ficar ok, logo entendemos que algumas coisas só iriam se naturalizar quando já estivessem acontecendo. As desconfianças em relação a essas duas coisas, “eles conseguirão se sustentar viajando?” e “eu consigo viver sem eles por perto?”, se provaram com o tempo e com a experiência.

Se a conclusão da nossa história pudesse ser cafona, como uma música pop, diria o seguinte: o amor encontra um jeito.

o último dia da cleinha com a gente, primeiro dia que ela nos deu a certeza que voltaria a nos ver em outro país

lisboa, 2018

Perto do coração

É bom lembrar que você não é egoísta porque resolveu viver viajando. Estar feliz, realizado, bem consigo mesmo também é estar inteiro para os outros. Se distanciar em quilômetros não significa abandono. É possível abandonar uma relação com alguém morando sob o mesmo teto que ela. Você ficará mais consciente disso tudo quando estiver longe: as relações precisam de trabalho, de manutenção, de cuidado. E esses momentos que você dedicará aos amigos e familiares serão intensos e valorosos — a pessoa não está mais ali na mesa ao lado, ou na cozinha enquanto você assiste à tv. É preciso aproveitar o tempo com ela. Você não esquece o quanto ela faz falta, e o quanto importa pra você.

Nós aprendemos sobre presença na distância, e descobrimos que somos melhores (para o outros) quando estamos melhores (com nós mesmos).

E que os elos que nos unem aos que amamos são feitos de uma matéria resistente, que não se gasta e não se rompe, não importa o quanto seja preciso esticá-los.

 

 

Queremos muito saber o que você pensa!