sobre a vontade inadiável de viajar o mundo


um texto sobre um sentimento que não cessa e sobre o que fazer com ele

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O exercício é relativamente simples. Pense sobre os momentos nos quais você é mais feliz. Mais do que isso: pense sobre momentos nos quais você se sente vivo, inteiro, momentos nos quais você se sente conectado com os seus desejos e com a sua verdade. Pense sobre experiências ricas, potentes, inspiradoras, transformadoras. Agora imagine um ano de 365 dias, e imagine que em apenas trinta deles você teria a chance de viver esses momentos. Imagine, ainda, que, espremida nesse intervalo curto de tempo, a chance de vivê-los diminuiria um pouco mais, já que a experiência estaria fatalmente impregnada de pressa, estresse e ansiedade. Imagine 365 dias organizados dessa forma, precedidos e sucedidos por outros grupos de 365 dias iguais a esse, e, assim, imagine uma vida.

Nós imaginamos. E o vislumbre fez com que a vontade de viajar o mundo se transformasse em urgência. Não dava pra passar um ano esperando por trinta dias de férias. Não dá pra passar uma vida esperando pra se sentir vivo.

viajar pelo mundo

comer o mundo precisava ser uma rotina, e não mais uma conversa adiável.

platanias, 2018

De onde vem a vontade constante de viajar o mundo

Essa fome de mundo parte de motivações particulares (adoraríamos saber das suas nos comentários). Tem quem deseja perder o fôlego em paisagens, quem anseia pelo frenesi do novo, quem quer ver mais de perto a História, quem precisa sentir o mundo porque não se sente de lugar nenhum. A nossa, em particular, parte de três anseios — um que compartilhamos e dois outros que não:

1. Aprender com o diferente

Pra mim, Nath, a vontade de viajar o mundo sempre fez parte de quem eu sou — uma parte enorme, sem a qual eu não me reconheço. Eu não entendia porque as coisas mais banais tinham que ser de um determinado jeito, e sempre me perguntava como poderiam ser de outro. O vislumbre que tive do diferente na minha primeira viagem pra fora, pro Uruguai, alimentou uma vontade que era ainda tímida, mas que esteve sempre ali.

Entender que ao mesmo tempo no mundo coexistiam várias outras possibilidades de vida, de se relacionar, de trabalhar, de se alimentar, de manifestar a fé, o amor, a individualidade, e poder me aproximar de tudo isso, começa a responder como as coisas podem ser de outro jeito. E me faz também entender porque algumas coisas são do jeito que são onde eu cresci e morei. Olhar para o outro com sensibilidade é sempre, também, enxergar a si mesmo.

Eu me descubro no contraste, e me ver imersa em uma outra cultura sempre me devolve a pergunta: como eu seria se tivesse crescido aqui? Nessa geografia, com esse idioma e com esses valores? E o mais importante: como eu quero ser a partir daqui? Muito do que somos não vem da gente, vem do contexto onde crescemos, onde passamos a maior parte da vida.

Experimentar outras histórias é dar chance de se descobrir e de ser mais autor de si

almoço em família em Creta

almoço com a nossa “família” grega para comemorar o “dia do nome” da nossa anfitriã (é mais importante que aniversário).

kissamos, 2018

Eu, Lucas, também tenho disso. Sempre gostei muito de ouvir as histórias das pessoas, e de aprender com elas. Tem um saber que se constrói e se compartilha com a experiência humana, algo no encontro, no real, na oportunidade da troca, que os livros ou um documentário “quem são, como vivem” não são capazes de entregar. Como alguém se faz indivíduo, constrói caráter, identidade, gosto e hábito, o que ali floresceu a partir do livre arbítrio, ou quais repressões aquela sociedade impôs e como isso se reflete no gesto, na fala, na maneira que vive. Essa investigação inesgotável faz parte de mim.

2. Olhar como estrangeiro

Trocando de país a cada 3 meses, temos imagens chegando às nossas retinas pela primeira vez. Nosso olhar, inevitavelmente estrangeiro, cria sentidos e produz juízos sobre uma coisa de uma maneira muito diferente do que para quem é local. As montanhas de Creta, na Grécia, podem parecer comuns, até sem graça pra quem as vê todo dia, como é para um grego com quem conversamos. Ele diz que “porque são só de terra, sem vegetação”. Para mim, Nath — acostumada com o verde de Floripa — elas são belas, deslumbrantes.

a mistura do azul, com um pouco de verde escuro e o marrom das montanhas é inevitável aos olhos.

balos, 2018

Todas essas imagens novas (não só a vista de um cânion monumental, de uma praia exuberante, ou de outra maravilha da natureza amplamente reconhecida ou explorada turisticamente) pra mim são sempre fascinantes. Eu me interesso por todos os lugares: por como é aquele mar, aquela vegetação, aquele inverno. E, mais que tudo, como eles nunca são iguais.

Eu não preciso viajar porque nenhum lugar é bom o suficiente; preciso viajar porque todos são, de alguma forma.

Quando eu ainda tinha endereço e trabalho fixo, teimava em experimentar caminhos novos para chegar nos mesmos lugares, ou almoçava em um restaurante e comia a sobremesa em outro: eu sempre procurei o novo, o diferente, a alternativa.

3. Não pertencer a lugar nenhum

Eu, Lucas, sempre me senti deslocado. Mudei de cidade algumas vezes durante a infância e adolescência, então nunca pude dizer com muita firmeza de espírito a minha casa, a minha cidade, o meu lugar. Eu nunca senti que eu tinha um lugar pra chamar de meu, e acabei sentindo que não precisava ter. Esse ir e vir, essa sensação de transitoriedade, de passagem, são fundamentais pra mim  — é a isso que eu pertenço.

Perceber a paisagem se transformando através da janela do trem, ou sentir o avião decolando e me levando pra longe; é quando eu me sinto em casa comigo mesmo.

viajar o mundo

o lucas relaxa ao estar em um lugar desconhecido, é como se tivesse chegado em casa.

rio, 2016

Por que a vontade é inadiável

Se você fez o exercício do primeiro parágrafo desse texto e imaginou que os momentos que te fazem sentir vivo estão: no tempo que você passa com a família, ou fazendo um trabalho que traz satisfação, ou colocando o corpo em movimento quando pratica seu esporte preferido, tem que respirar aliviado. Provavelmente você pode experienciá-los na maior parte dos seus dias. E se ainda não o faz, talvez consiga, com alguns ajustes, tornar esses momentos mais frequentes.

Não é assim pra quem só se sente vivo viajando. A rotina de oito horas de escritório não é só um pouco enfadonha, ela é um empecilho, faz mal. Se você sente que se arrasta amortecido(a) pelos dias e pelos anos, preso a uma rotina esvaziada de sentido, propósito, ou poesia, talvez seja hora de ouvir esse sussurro que chama (quase nunca é um grito), dizendo que a vida tem que ser diferente. 

é inenarrável a sensação de poder flutuar pelo mundo sem um ponto final.

buenos aires, 2016

No meu caso, Nath, foi a minha saúde que ativou sirenes e avisos luminosos de mudança. Me deslocar todos os dias de uma “caixa” (a minha casa) para outra “caixa” (o meu trabalho), sendo que já estava claro pra mim que a vida estava lá fora, começou a causar um mal estar que piorava a cada dia. O sussurro virou ansiedade, que culminou em crises de pânico — que só tenho coragem de contar aqui porque não sofro mais. Algo (imenso) precisava mudar. Pedir demissão e abrir a nossa empresa me deu a liberdade pela qual meu desespero implorava, e então foi possível começar a pensar em como viajar mais.

Nós logo entendemos que viajar um pouco e voltar um pouco não era a melhor alternativa. A passagem de volta pra casa atrapalha: nós ficamos ansiosos, sempre com medo de perder algo, de não haver tempo para conhecer tudo que queremos, de não estarmos explorando o suficiente, de não estarmos vivendo tudo que podemos.

Viajar devagar faz com que a gente viva a viagem desfrutando o que há de mais potente na experiência: nós mantemos a consciência de que aquele período é único, vai acabar, e deve ser aproveitado intensamente, mas o fazemos com calma, sem ansiedade — nós decidimos quando acaba.

a liberdade de lugar é um caminho sem volta.

gramvoúsa, 2018

Por que vale a pena mudar toda a vida pra viajar o mundo

Decidir viver viajando não foi uma escolha simples. Mas mais difícil era olhar para imagens de aeroportos em filmes e para as próprias fotos de viagem, sentindo tão dolorosamente que era ali que nós gostaríamos de estar. Pedir demissão e reinventar o próprio trabalho não foi simples. Mas mais difícil era lidar com a frustração no escritório todos os dias, era estar tão focado em carreira e trabalho a ponto de esquecer de tirar férias, era sentir no corpo os efeitos de uma vida sem propósito. Não estar vivendo como a maioria das pessoas, sentir-se julgado ou ter que se defender constantemente não é simples. Mas mais difícil seria não ouvir a si mesmo.

Vale a pena.

A gente sentiu que sim quando os trinta dias se tornaram trezentos e sessenta e cinco. E quando a gente trocou a legenda da foto de viagem, de “#tbt” para “hoje à tarde”.

O que você pensa sobre isso?