slow travel: a ideia que permite a gente viver viajando pelo mundo


como essa maneira de pensar viagem nos ajuda a conhecer uma cidade a cada 3 meses e trabalhar ao mesmo tempo

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Não era uma questão que uma simples mudança de emprego ou uma viagem de férias pudesse resolver. A gente gostava do que fazia, mas tinha algo na rotina, na estrutura dos dias e dos anos (trabalhar o dia todo com a noite de folga, ou o ano todo com trinta dias de férias) que para nós deixou de fazer sentido. Talvez nunca tenha feito. E foi preciso encontrar um momento no fluxo louco da vida para realmente parar e pensar a sério sobre isso.

Estar atento às urgências do coração e sacudir a vida quando preciso nos parece o único caminho para não desperdiçá-la.

slow travel, viagem devagar

a sensação de paz de estar fazendo o que a gente queria.

ouro preto, 2017

How we spend our days is, of course, how we spend our lives.

— Anne Dillard

A gente não queria, e nem poderia se quisesse, simplesmente ‘largar tudo’ para começar a viver viajando. E nós não largamos tudo. Nós não estamos em um “período sabático”, com um tempo determinado de começo e fim, e para o qual seria preciso uma boa reserva de dinheiro. Também não estamos em férias prolongadas, como algumas pessoas gostam de acreditar. Não somos aventureiros free spirit jogados no mundo, dispostos a trabalhar no que aparecer, vivendo ao sabor do destino. Nós criamos uma pequena empresa, trabalhamos remotamente e vivemos nos movendo pelo mundo.

 

Por que o slow travel é a única forma que viajamos

Viajar devagar, com calma, sempre nos interessou muito mais que assinalar check em um mapa-múndi no máximo de países possível — essa coisa de passar pouquíssimo tempo em cada lugar, tempo suficiente apenas para poder dizer ‘estive aqui’, tendo muitas vezes uma experiência protocolar, roteirizada e um pouco maníaca de viagem, onde é preciso ver e experimentar tudo o mais rápido possível antes que o tempo acabe. E esse ‘tudo’ são as dicas dos amigos, as atrações do guia turístico, e não necessariamente as nossas próprias descobertas.

Antes de mudar de vida, e começar a viver viajando, nós fizemos várias viagens de férias e acabávamos sempre um pouco frustrados com a sensação de que havíamos vivido apenas a rotina de viagem (visto, aeroporto, hostel) e não a rotina da cidade.

Viajar com calma nos permitiu explorar e descobrir por conta própria.

pontos turísticos

passeio turístico de barco “obrigatório”. exaustão na cara e a certeza de que não era assim que a gente queria viajar.

cidade do méxico, 2015, em xochimilco

Uma padaria para chamar de nossa

Estar sempre se movendo, para nós, tem muito a ver com a possibilidade real de imersão na cultura dos lugares onde a gente escolhe estar. Um turista que só dá check no lugar não sabe qual o melhor horário para ir ao supermercado, não consegue conhecer de verdade os habitantes e ganhar um sorriso do vizinho do prédio, nem cria vínculos mais estreitos e afetivos com a cidade, do tipo: “essa é a padaria que a gente ia toda manhã”.

slow travel

o movimento do guardador de carros acompanhado de um croissant e um espresso.

panadería el globo, 2015

Como o slow travel nos permitiu viver viajando 

O slow travel nos dá tempo para criar uma pequena rotina em cada nova cidade e curar anseios comuns de quando se está longe de casa — de sentir falta da comida que gosta, de ter saudade da própria cama. Cada Airbnb se torna nossa casa fixa, mas só por alguns meses.

O slow travel nos permitiu deixar a nossa casa sem querer voltar.

Isso fez com que ficássemos confortáveis com a ideia de que viver viajando nos possibilitaria ver o mundo, mas a nossa rotina não precisaria ser algo tão distante do que já estávamos fazendo quando vivíamos em Floripa. Claro, com algumas adaptações e desapegos.

 

Dá para morar bem

Ficando mais tempo em um lugar, dá para baratear bastante o custo com hospedagem. No Airbnb, por exemplo, é muito comum conseguir desconto para estadias que durem mais de uma semana, e ainda mais desconto quando passam de um mês.

Há o desconto que já está ali, anunciado na página do imóvel, e há ainda a possibilidade de conseguir mais conversando com o anfitrião por mensagem privada – é comum nós conseguirmos 50% alugando por um mês ou mais, o que sempre fazemos. Essa é uma tática bem comum para quem vive viajando, e ela é normalmente bem sucedida porque o acordo acaba sendo vantajoso para quem aluga: menos faxinas de check-in e check-out, menos gerenciamento de reserva (conversas com possíveis hóspedes, divulgação do imóvel, e etc) e o dinheiro garantido no fim do mês. Somado a isso, eles também estão levando em conta que esse tipo de viajante vai cuidar melhor do espaço, já que estará morando ali por um tempo. Pode dar trabalho conseguir um desconto e depende de algumas coisas como: a quantidade de imóveis no destino, se o host faz isso profissionalmente ou não, qual a época do ano. Na baixa temporada, as chances de conseguir esses descontos grandes aumentam.

slow travel - acomodações de longo prazo

ficamos por 3 meses neste apartamento lindão. conseguimos um desconto de 50% pelo airbnb.

porto, 2018

Outra razão pela qual dá para morar barato fazendo slow travel: você não precisa estar nas áreas centrais das cidades, ou perto de pontos turísticos. Bairros residenciais com acesso a transporte público podem custar bem menos, e geralmente são lugares gostosos de morar.

Falando abertamente em valores: hoje, nós temos um orçamento mensal para hospedagem com um teto de R$2.600, o mesmo valor do aluguel que pagávamos pelo nosso apê em um bairro legal de Floripa, a última cidade onde tivemos residência fixa (incluindo luz, internet e condomínio). Nosso apê lá nem era mobiliado, e com o mesmo valor alugamos no Airbnb casas inteiras e mobiliadas (lindamente, aliás), com energia, internet e todos os boletos pagos.

É claro que esse valor não cobre um acomodação como a gente gosta em todo tipo de cidade, e é por isso que nos pautamos nele para definir o próximo destino.

Dá para ganhar a vida

Diferente de uma viagem de férias, para onde seria um pesadelo levar trabalho, dá para estabelecer uma rotina em cada cidade, equilibrar à nossa maneira o tempo de trabalho e de lazer, e, sim, ganhar a vida enquanto se viaja.

slow travel - trabalhar enquanto viaja

respondendo os emails que faltavam para fechar o dia.

buenos aires, 2016

O que nós descobrimos com o slow travel é que se mover e trabalhar ao mesmo tempo é bem mais simples do que a gente poderia supor. Hoje, sentimos que não há nada de exótico em ser nômade digital. O trabalho está ali, temos um lugar para dormir, cozinhar – a grande diferença é que esse lugar não é o mesmo por muito tempo. E que esse tempo de permanência em cada cidade, agora, é a gente que escolhe.

O slow travel nos permitiu alterar a estrutura dos dias e dos anos de forma sustentável. Temos um pouco de férias todo dia, quando aproveitamos a cidade, e conseguimos ganhar a vida ao mesmo tempo.

Para nós, que nos sentimos mais vivos quando estamos nos movendo no mundo, “ganhar a vida” adquire um sentido mais profundo e mais bonito.

 

Dá para equilibrar o trabalho e a vida

Ficando um bom tempo em cada cidade, dá para trabalhar e dá para curtir o lugar. Cada pessoa, de acordo com as suas demandas, vai descobrindo o tempo de cada coisa. Nós, por exemplo, trabalhamos em um dia comum seis horas e depois descansamos ou vamos explorar a cidade.

slow travel - aproveitar a cidade

fim do expediente em uma quarta-feira. mochila cheia de snacks.

tulum, 2017

Quando começamos com um cliente novo na nossa agência, sabemos que teremos que trabalhar mais, e ficamos em paz com isso, porque vai dar tempo de conhecer bem a cidade de qualquer forma.

Para nós, trabalhar durante uma viagem curta é muito estressante e coloca em risco o nosso negócio e a nossa saúde, já que é muito difícil se organizar física e mentalmente vivendo um ritmo frenético de aeroportos, vôos e passeios.

 

Dá para ir e vir como local

Em uma viagem rápida – de uma semana, por exemplo – é preciso sair de um lugar ao outro o mais rápido possível: não dá para perder tempo tentando entender as linhas viárias da cidade, pegando dois ônibus para chegar até um destino, ou esperando mais que meia hora na estação. O que significa gastar muito mais dinheiro indo e vindo.

Morando mais tempo na mesma cidade, a gente se locomove como um local e usufrui da melhor maneira do transporte público – inclusive dos benefícios, como cartão mensal ou similares, que costumam diminuir o preço de cada ticket.

 

Dá para cozinhar em casa

Viajando devagar você tem os dois elementos fundamentais para baratear seus custos com alimentação: um lugar para cozinhar e tempo para cozinhar.

slow travel - cozinhar

lentilha com alhos cozidos no azeite de oliva português, acompanhado de castanhas portuguesas, para nos confortar em dia de frio.

porto, 2018

Fazer a própria comida não só custa menos, mas também é uma experiência mais profunda de aproximação com a cultura local: você passa do “olha como eles fazem”, do turista, para o “fazer como eles fazem”. Ainda é, irremediavelmente, uma experiência de alteridade, mas é essa justamente a que nos interessa. Em oposição a do viajante comum, ou do etnógrafo.

Na Cidade do México, por exemplo, precisávamos de um pimentão para fazer um refogado. Encontramos, mas quando fomos experimentar descobrimos que um pimentão parecido com o brasileiro era na verdade muito mais apimentado.

Isso nos ensinou a perguntar sobre os produtos locais e a pesquisar mais sobre a culinária de cada país. Se a cozinha é realmente o maior elo entre a natureza e a cultura, a gente sente que é fundamental vivê-la, e não apenas prová-la pronta.

 

Dá para aprender com os erros (como quando estamos na nossa cidade)

O que a gente quer dizer com ‘erro’? Quando a gente não conhece a cidade, é praticamente certo que vai fazer algumas escolhas em que o custo-benefício não vai ser compensador. É aquela sensação de que gastou dinheiro ou tempo à toa, de que certos programas não valeram a pena – mesmo o blogueiro de viagem tendo garantido que valia.

Algo que nós aprendemos com a experiência é que as coisas que a gente pesquisa na internet antes de viajar, às vezes, são bem diferentes do que a gente encontra quando chega.

Em uma viagem curta, a gente só fica com a frustração. Fazendo slow travel, é possível tentar de novo e aprender com cada experiência: talvez aquele passeio seja melhor em outro dia da semana, eu consigo comer melhor e mais barato se frequentar os cafés daquele bairro.

Ficar por mais tempo em um lugar é errar, aprender e atualizar constantemente suas impressões sobre uma cidade.

Viajar com calma é dar mais chances à cidade e a você

Dá para ser menos refém dos preços das passagens

Mais tempo em uma cidade, é igual a menos passagens para outros lugares. Para quem tem só o tempo curto das férias, ficar pulando de lugar em lugar para ver tudo (e não ver bem nada) restringe a flexibilidade de datas, horários e preços. Para nós, que vivemos viajando, isso seria uma despesa inviável.

Nós temos passado uma média de três meses em cada lugar (o visto de turista quase sempre impossibilita ficar mais), o que significa que compramos passagens aéreas, no máximo, quatro vezes no ano — se o destino é próximo, menos, porque vamos de ônibus mesmo. Como nós temos a liberdade de decidir quando vamos viajar (diferente de uma viagem de férias com data pré-determinada), dá para escolher os dias com as passagens mais baratas.

Comprando dessa maneira, e com antecedência, conseguimos descontos de 20 a 40%. Em sites como o Viajanet e o Google Flights, dá para selecionar o destino (sem selecionar nenhuma data) e ver quando está mais barato para viajar:

slow travel - passagens baratas

Acabamos gastando bem menos com passagens por ano do que as pessoas pensam.

 

Dá para escolher o custo de vida

É bem provável que o que você gasta hoje por mês (na sua cidade) seja o suficiente para estar em outra. Para nós, foi. E notamos que também poderia ser bem menos quando adotamos o slow travel.

O nosso custo de vida médio por pessoa (com todas as despesas) em algumas cidades onde já “vivemos”:

  • Cochabamba (Bolívia): R$ 1.200 ao mês
  • Kiev (Ucrânia): R$ 2.000 ao mês
  • Playa del Carmen (México): R$3.000 ao mês
  • Belgrado (Sérvia): R$3.000 ao mês
  • Porto (Portugal): R$4.000 ao mês

Sabendo um pouco mais como o slow travel ajudou a gente a viver viajando, o que prende você à sua rotina hoje?

Nós nos permitimos questionar algo que antes parecia estanque, imutável. Mudamos a estrutura dos nossos dias e dos nos nossos anos quando perguntamos “tem que ser assim?” e “Se não vai ser assim, vai ser como?”.

Nós encontramos o nosso ‘como’ e falar sobre ele é a razão de ser deste blog. Se acendeu uma faísca de possibilidade aí dentro, esperamos que a gente possa te ajudar ainda mais.

Os desejos que devem ser levados a sério são os inflamáveis.

Queremos muito saber o que você pensa!