quando é a hora certa de começar a viver viajando?


um guia completo para lidar com os medos e ansiedades de começar a viver viajando

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Viver viajando é uma atitude extrema. Está muito distante, do lado oposto, de uma vida sedentária (a pessoa que mora em um só lugar — a maioria das pessoas). Existe uma distância polar entre a vida que a gente levava e a vida que a gente queria levar. Isso pressupõe um caminho longo, demorado, difícil. Isso pressupõe medo do desconhecido e este pressupõe alguma dose de hesitação e de autossabotagem.

o mesmo desconhecido que provoca o medo desperta a curiosidade

buenos aires, 2016

Uma decisão extrema que não simplesmente obedece a um impulso único e fulminante, passível de se resolver em um arrombo inconsequente do tipo: pronto, fui lá e fiz. Viver viajando não é o mesmo que largar tudo pra viajar por um ano. Não pode ser impulso, deve ser antes um pulsar continuado e progressivo de mudança, sempre mais forte que as dificuldades e desculpas que você puder encontrar pra desistir de ir.

E acredite: você vai encontrar — e criar — as dificuldades e as desculpas e é comum que elas se confundam entre si. Entender como diferenciar quais são os obstáculos reais e quais são só nosso escudo instintivo diante do desconhecido é a única estratégia de movimento possível para se sentir cada vez mais perto do que parece tão longe, o outro lado, a vida com a qual você sonha.

estando lá, foi mais fácil aceitar que era possível, deixar as desculpas de lado

tulum, 2017

 

A hora certa nunca chega

Só com muita sorte ou por mágica a vida se encarregará sozinha de abrir todas as portas necessárias para que você então deslize suavemente em direção ao seu sonho. Curiosamente, as vezes a gente age como se um dia isso fosse acontecer: “eu vou, mas quando estiver mais preparado”, “quando tiver inglês fluente”, “quando for melhor profissionalmente”, “quando fizer um curso sobre isso”, ”quando tiver alguém pra ir comigo” “quando tiver mais dinheiro guardado”.

A verdade inconveniente é que a jornada para começar a viver viajando é um processo contra intuitivo. Não há nenhuma espécie de “cenário favorável” para que a mudança aconteça. Se parar para pensar, não existe cenário mais desfavorável do que aquele que leva ao desconhecido — que ameaça a vida que você construiu até aqui.

 

Esperamos a hora certa, porque não há nada pior do que começar agora.

aprendemos a lidar com a insegurança para dar os nossos próprios passos

buenos aires, 2016

Você pode até se preparar de todas as formas que puder: antecipando as rotas de fuga, definindo os passos ideias, mas quase todas as preparações são desnecessárias — são só alimento para a insegurança. É você contra o medo do desconhecido. E viver viajando sempre vai ser um lugar desconhecido. 

O caminho não fica mais fácil, você é que fica mais corajoso.

A hora certa nunca chega.

mesmo um lugar conhecido se torna desconhecido quando sua vida é nova

rio, 2016

O  que fazer ao invés de esperar a hora certa

Olhando a nossa trajetória, desde o pedido de demissão até o nosso cenário atual — e estável — de viver e trabalhar viajando, são claras as decisões que foram definidoras pra construir essa vida e as que fizemos só por medo.

O que vamos passar aqui é o nosso aprendizado: 3 coisas que você pode fazer se a coragem não apareceu ainda. Uma tentativa de encurtar o seu caminho e te salvar, ao máximo, da autossabotagem. 

 

1. Tornar o caminho menos exótico

Se o cenário não está dado, é possível criar ambientes que estimulem e encorajem.  Nós começamos a ampliar e estreitar nossos pontos de contato com a vida nômade — blogs, fóruns, livros, canais, conversas (menos os cursos-para-nômades, que são quase sempre um formato oportunista pra rentabilizar com a nossa vulnerabilidade). Fizemos isso não para aprender um passo a passo com quem já fez (por mais que a gente queira acreditar que isso exista), mas para não nos sentir estranhos por querer viver fora-do-status-quo.

Habitar um universo onde viver viajando é comum, é realidade, ou ao menos apreciado nos foi precioso e necessário. A vida que nós queríamos viver poderia ainda parecer longe, mas não era mais exótica. Havia pessoas, como nós, vivendo assim. Tudo que você não precisa nesse momento é o preconceito e a descrença alheia.

Algumas coisas que mudaram nosso universo e podem começar a mudar o seu:

a nath ajudou o lucas a entender que snorkel, mesmo nas águas mais agitadas, é incrível

xpu-ha, 2017

2. Colocar data no sonho

Colocar-se no caminho — e manter-se lá — pode depender de ações relativamente fáceis, mas com um impacto imenso. Nós entendemos que ações pequenas que geram um grande compromisso são fundamentais para começar a se mover: marcar a conversa pra pedir demissão, comprar uma passagem só de ida, postar o seu plano em uma rede social, comunicar a imobiliária que você vai deixar o imóvel. São pequenos passos, que comprometem você com uma deadline — um ponto de fim para sua vida antiga e um ponto de partida para sua vida nômade.

Nós, quando nos vimos com apenas 45 dias para desocupar o apartamento em Floripa (porque resolvemos comunicar a saída à imobiliária, mesmo sem nos sentir preparados), imediatamente passamos a colocar esforços em decidir o que seria feito da mobília, qual seria o primeiro destino e no que mais faltava para começar, enfim, a viver viajando. 

3. Resolver a questão do dinheiro (saber quanto você realmente precisa pra ser nômade) 

É sempre a maior questão. Parece que cada real a mais no montante é igual a uma dúvida a menos sobre a nossa capacidade. E não tem mesmo como fugir: pra começar a viver viajando, é importante ter um pouco de dinheiro guardado pra emergência e uma fonte de renda recorrente o suficiente pra nova vida parecer mais vida do que sobrevivência. Mas quanto exatamente?

Se você não tiver clareza do quanto precisa, nunca vai parecer a hora certa para começar. “Guardar mais um pouco”, “esperar mais clientes”, “ver antes se consigo gastar menos” vão ser sempre caminhos mais atrativos do que pular no desconhecido.

Para não cair na autossabotagem, é preciso sair do planejamento-financeiro-nômade-imaginário e ir para o prático. Para isso, vale refletir sobre 3 pontos:

  • qual é o seu custo-de-vida-mínimo (o mínimo que você precisa pra viver bem);
  • quais outros custos inerentes à vida nômade você vai ter;
  • quanto é necessário ter guardado antes de ir.

nos aproveitamos dos benefícios de cada país. no méxico, suco é tão barato quanto água

akumal, 2017

Qual é o seu custo-de-vida-mínimo

Talvez você já saiba exatamente o quanto gasta por mês. Nesse caso, considerando que você poderia poupar em algumas coisas, pense no valor mínimo mensal que você precisa para se sentir bem (vamos considerar que você vai começar com destinos com custo parecido com a sua cidade atual).

Se você não faz controle ainda, isso é essencial pra saber quanto vai precisar de dinheiro como nômade. Quando a gente se propôs a mudar de vida, estávamos dispostos a viver com menos, mas não a mochilar, passar perrengue. Tivemos que descobrir qual era o mínimo que precisávamos por mês pra nos sentir confortáveis. Só quando atingimos essa renda mensal de maneira autônoma é que nos sentimos seguros para comprar a passagem só de ida.

Se você ainda não tem ideia do seu mínimo, comece fazendo o controle das suas finanças atuais, durante um mês. Pode ser em uma planilha ou em um aplicativo (a gente usou o guiabolso). O objetivo é descobrir quanto você gasta mensalmente hoje (o quanto vai para o mercado, comer fora, compras, aluguel, etc) e, com base nisso, com quanto você estaria disposto a viver.

Quando nós dois vivíamos em Floripa, não fazíamos muito monitoramento das finanças. Começamos a fazer justamente pra descobrir o quanto precisaríamos ganhar pra começar a viver viajando. De descuidados 10 mil que gastávamos lá, entendemos que com R$ 6 mil por mês viveríamos bem (tanto em Floripa como em outras cidades do mundo com o mesmo custo de vida). 

 

nessa época ainda estávamos entendendo nossos gastos em uma vida nômade.

ouro preto, 2017

Quais são os custos adicionais da vida nômade

Já falamos aqui que o slow travel é nosso jeito viajar e que nos ajuda a economizar: são menos passagens e menos gastos na cidade onde ficamos.

Se você viajar devagar também (e com o tempo descobrir a sua velocidade), e ficar em destinos com o custo parecido com a cidade que você mora hoje, vai conseguir viver bem com seu custo-de-vida-mínimo. Porém, precisa adicionar ainda outros três custos mensais, inevitáveis à vida nômade:

  • IOF + taxas: 3% do valor que você gastar por mês (caso vá para fora do país) vai para IOF de transferência para o exterior (não é o mesmo que cartão de crédito);
  • Passagens: R$ 330 por mês em passagens. Se você pretende mudar de cidade a cada três meses (como nós), serão quatro viagens ao ano. Se forem para lugares próximos um do outro, você economiza bastante (fomos da Croácia para a Sérvia de ônibus este ano). Considerando um valor médio alto para cada uma dessas passagens (1 mil),  você gastaria 4 mil em um ano, o que significa um custo de mais ou menos 330 reais por mês.
  • Seguro-viagem: 280 por mês. Muitos países exigem, e nós recomendamos (encaramos como se fosse um plano de saúde e até sai mais barato que um). Gastamos R$ 280 por mês no seguro-viagem que usamos, para cada um no WorldNomads – dá pra fazer uma cotação no nosso simulador.

Por fim, sua renda mensal necessária como nômade, por mês, ficará assim:

seu custo-de-vida-mínimo + 3% desse valor + R$ 330 reais de passagem + R$ 280 de seguro-viagem.

Como foi essa conta pra gente: em Floripa, gastávamos, nós dois, 10 mil por mês (tínhamos hábitos caros). Calculamos que o mínimo de renda que precisaríamos para viver viajando (sem nos arrepender da decisão), era de 5 mil reais por mês, ou seja, 2.500 mil por pessoa. Acrescentando os custos da vida nômade, a renda mensal que teríamos que buscar era de 6 mil reais por mês (somando nós dois).

Se sua renda mensal ainda não vem de um trabalho remoto ou ainda não é suficiente, evite ficar só esperando. Crie um plano pra chegar nesse valor até a deadline que você se comprometeu pra começar o sonho. Antes agora, do que tarde. Se já ganha o suficiente, não tem mais por que esperar.

Quanto é necessário ter guardado antes de ir

Além da renda mensal, é importante ter uma reserva antes de começar. Não mais que o necessário, principalmente se guardar mais significar ficar por mais tempo adiando o sonho.

Uma reserva que sustente você por 3 meses (3x o seu custo-de-vida-mínimo + gastos nômades) é o suficiente para lidar com imprevistos. Se algo der errado, você tem tempo e dinheiro suficientes para retomar o fôlego.

mesmo com 10 metros sob os pés não há nada que impeça a nossa vontade de ver o fundo do mar

cozumel, 2017

Esperar para começar quando você ganhar mais ou quando tiver mais dinheiro guardado do que o necessário não vai deixar a decisão de viver viajando mais fácil. Conhecemos pessoas com mais de 200 mil na poupança que ainda estão ensaiando começar.

Um passarinho quando aprende a voar sabe mais de coragem que de voo

— Lucão

Se ainda assim faltar coragem

Coragem é um sentimento que se apega a acontecimentos positivos da vida. Construir memórias boas sobre viver viajando pode ser fortaleza quando aparecer aquele desejo de adiar o momento de começar. Você pode fazer isso testando a sua nova vida por um período, antes de começar por inteiro — foi assim com a gente. Nem todo mundo tem o mesmo ponto de partida.

Comece, mas só um pouco

Testar a si mesmo trabalhando de casa e durante pequenas viagens em alguma medida suaviza a transição e já antecipa descobertas que, se deixadas pra depois, podem frustrar e gerar dúvidas sobre a sua decisão. Por exemplo: “eu quero muito viajar, mas quando trabalho em casa sinto falta da convivência diária com os colegas do escritório”, ou, “quero muito viajar mas estou tendo dificuldade em organizar meus horários e estou produzindo menos do que deveria”. Este é o momento para que você já meça o que é importante pra você: você será feliz sem encontrar rostos conhecidos todos os dias? Isso é fundamental? E assim, começar a conhecer (e confiar) em quem será você como nômade.

Nós nos testamos em várias viagens antes de ficar sem endereço fixo definitivamente. A cada vez, ficavam mais vivas algumas crises que acreditávamos superadas. Se nós já havíamos entendido que na vida nômade havia liberdade com horários, e se a nossa noção de trabalho nada tinha a ver com as horas gastas trabalhando, mas com os resultados alcançados, por que é que eu, Lucas, me sentia ansioso e culpado sempre que saia pra passear? São essas dificuldades intransponíveis, ou só estou usando esses problemas como desculpa para justificar a falta de coragem?

Antecipar esses aprendizados ajuda a calar as vozes do desconhecido e dá espaço a ajustes finos que vão fazer você se sentir mais corajoso de se tornar seu eu-nômade. É bem mais fácil adiar o sonho quando ele está lá longe, no futuro, do outro lado da sua vida atual. Se você já o está vivendo, mesmo que só por um tempo, não vai querer perdê-lo.

 

A hora certa nunca chega. Mas você chega. Num tempo que é seu, sendo sincero consigo mesmo, resistindo a autossabotagem, superando batalhas contra o mundo e crises interiores.

E as notícias de quem já está no outro extremo são animadoras: vai valer a pena.

 

 

O que você pensa sobre isso?